PELO MENOS CINQUENTA CENTAVOS E DOIS CIGARROS A RETALHO

Nunca mais teve notícias de Aparício. Sumiu do mapa o bacana. Parou pra calcular e percebeu que já se iam quase duas décadas. Tempo bastante, porém, não o suficiente para impedir que o reconhecesse assim, do nada, em qualquer lugar. É inconfundível aquele andar de quem parece querer afrontar o mundo com soberba. A máscara anti-Covid, não serviu para livrá-lo de ser assim tão facilmente reconhecido, mesmo depois de tantos anos. Pensou até em se fazer de desentendido, olhar pro lado, simplesmente não cumprimentá-lo. Talvez ali não fosse o lugar ideal. Uma fila de loteria. Calor infernal. Começo de mês. Angústias e amarguras interagindo entre boletos a serem quitados, e números que surgem em sonhos – convertidos em apostas para modelos pré-concebidos de felicidades. (Jogos de azar para vidas sem sorte)  Poderia ter ido tentar no jogo do bicho mesmo. Quem sabe desse o seu milhar na cabeça justamente hoje. Ou não. Talvez o prêmio da sorte fosse a possibilidade de não ter se encontrado com Aparício naquela situação. “Loteria da Babilônia”. Gostava de lembrar do nome dessa música toda vez que ia tentar a sorte. Se sentia um pouco mais inteligente do que a média vigente naquela fila. Isso lhe confortava. Mesmo que no fundo tivesse plena certeza de que era só mais um inútil, tentando enganar a si próprio.

-Olha só, olha só se não é o velho Borges.

-E aí Aparício, quanto tempo hein.

 -Rapaz, se não tivesse assim de tão perto confesso que não reconheceria.

Duas décadas caralho. Parava em frente ao espelho e se enxergava em avançado estágio de decadência. Rugas, cabelos brancos, alguns quilos a mais, problema na coluna. Muita água passou debaixo da ponte desde aquele fatídico outubro de 2001. Drinks caros, baladas intermináveis, amizades sinceras com prazo de validade, confetes existenciais. Só lembranças cada vez mais longínquas. Como se fosse uma realidade que nunca viveu de fato. E agora tudo volta assim do nada. Na fila da loteria.

 -Grande Borges. Bom te ver de novo. Vou deixar com você meu cartão. Qualquer coisa me liga e marcamos uma cerva lá no “Cálice”.  Ah ah ah, como nos velhos tempos Borges. Ah! ah! ah!

Filho da puta. O tempo parece não ter passado pra ele. Ficava pensando como era incrível que algumas pessoas tinham aptidão inata a se dar bem. Tudo convergia para que em qualquer atividade que se aventurassem, lograssem êxito. Enquanto outros, como ele, pareciam vivenciar uma espécie de  bailado eterno com o azar. Antes de amassar o cartão e jogar no lixo, parou e leu. “Representante Comercial”. Deve tá bem o Aparício. Sempre esteve. Família com condições, deu a estrutura necessária apesar das loucuras. Ainda ficou mirando ele até o final da rua, olhou novamente pro cartão. Desamassou e guardou no bolso. Nunca se sabe. A vantagem tá no olho de quem vê. Sempre alguém vai querer tirá-la de algum otário menos desavisado. Abriu a carteira, conferiu o dinheiro. Ia sobrar umas moedas de troco. Pelo menos cinquenta centavos e dois cigarros a retalho. “Próximo!”. A mulher do caixa anunciou frenética. Pensava que a vida às vezes era como filas de espera em loterias. O azar era só um estado de espírito…

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